Episódio 02 - Agosto de 2025
Bem-vindo(a) a bordo!
Estou empolgado, e ao mesmo tempo um pouco inseguro ao começar a escrever este blog. Compartilhar minha experiência na Clipper Race cruzando o Atlântico, combinada com aprendizados da carreira corporativa de uma forma que inspire e encoraje a ir além dos seus limites é a minha missão. É a primeira vez que escrevo um blog, e sinto a responsabilidade de torná-lo simples, útil e autêntico.
A minha aventura é grande, no entanto, existem aventuras muito maiores, de pessoas incríveis velejando solo ao redor do mundo, escalando os picos mais altos ou mergulhando nos mares mais profundos. Eu espero trazer valor contando sobre minhas histórias e aprendizados sempre com um viés de insights acionáveis, demonstrando que grandes feitos são grandes em relação a cada um de nós, e não dependem de uma medida absoluta, mas sim das nossas próprias zonas de conforto.
Neste primeiro episódio, vou falar sobre segurança, um tópico tão crítico em alto mar quanto nos escritórios, chãos de fábricas ou salas de conselhos de empresas.
Imagine-se em um veleiro oceânico de 70 pés, enfrentando ventos fortes, chuva, nenhuma visibilidade, o barco adernado (inclinado lateralmente) agressivamente, ondas varrendo o convés e te deixando encharcado. Numa situação como essa, o simples ato de andar pelo convés do veleiro é uma tarefa com risco de vida.
A Clipper Race nos ensina o princípio de "Segurança em Primeiro Lugar". Todo membro da tripulação, independentemente de experiência anterior, passa por um treinamento rigoroso e obrigatório para se tornar um velejador oceânico. Não se trata apenas de aprender a velejar; é sobre incorporar hábitos padronizados de segurança, de forma que todos usem as mesmas técnicas e comandos para evitar riscos. A bordo, medidas de segurança são treinadas à exaustão, desde a forma de manusear os cabos (cordas do barco) nas catracas até os procedimentos de resgate de pessoas que tenham caído, conhecido como "Homem ao Mar" (MOB - Man Overboard).
Vou te apresentar ao Bob. Bob ama velejar, é um veterano do mar, super experiente, já fez diversas travessias oceânicas tendo cruzado os sete mares. Entretanto, Bob tem um mau hábito de pular no mar enquanto estamos velejando e ninguém está prestando atenção nele. Sempre que isso acontece durante os treinamentos da Clipper Race, temos que realizar o procedimento de resgate “homem ao mar” ou MOB, que envolve vários procedimentos como soar o alarme imediatamente, marcar a posição no GPS, parar o barco, localizar o Bob, preparar os equipamentos de socorro e realizar o resgate propriamente dito.
Como você deve ter suspeitado, Bob não é uma pessoa de verdade; ele é um boneco em tamanho humano, que pesa cerca de 70 kg, usado para simulações de resgate de “homem ao mar” acionadas de surpresa pelo Skipper em diferentes situações durante os treinamentos. Isso garante que a tripulação esteja sempre preparada para fazer o que precisa ser feito caso a situação aconteça de verdade.
Embora Bob seja apenas um boneco, casos de "homem ao mar" são um perigo real. As ocorrências são raras, no entanto, as taxas de fatalidade são altas: quase metade (47%) dos incidentes em barcos de lazer relatados ao MAIB do Reino Unido (Marine Accident Investigation Branch) entre 2015-2023 resultaram em fatalidade.
Existem vários outros aspectos de segurança que devemos aprender, praticar e adotar no mar, especialmente em uma regata oceânica como a Clipper Race.
Coletes Salva-Vidas: obrigatórios no convés, e todo membro da tripulação deve saber como ajustar, verificar e inflar corretamente seu colete salva-vidas.
Arnês de Segurança: durante a noite, em ventos médios a fortes, ou quando estiver na proa do barco, além do colete salva-vidas é necessário estar sempre conectado ao barco através de um cabo conhecido como o arnês de segurança. Desta forma, mesmo que caia para o mar, ainda estará preso ao barco, podendo ser trazido de volta.
Conhecimento e Manutenção: a tripulação da Clipper Race precisa conhecer os principais elementos do barco, incluindo a parte elétrica (geradores, baterias), mecânica (motor), dessalinizadores, tanques de combustível, alarmes e bombas de porão. Manutenções de rotina e verificações diárias são realizadas com disciplina.
Atenção constante: o ambiente em um veleiro de corrida oceânica muitas vezes parece ser caótico por conta de várias coisas acontecendo ao mesmo tempo. A tripulação deve observar constantemente o ambiente, antecipar os próximos movimentos e prestar atenção até aos menores detalhes.
Vamos agora explorar os paralelos de segurança no ambiente corporativo, particularmente sob o aspecto digital. Assim como o oceano coloca a prova o mais experiente dos velejadores, o mundo digital, com tecnologias evoluindo de forma acelerada, desafia as organizações. Líderes de tecnologia, como CIOs, precisam liderar uma cultura de segurança em primeiro lugar.
Alguns exemplos de como podemos traduzir a segurança no mundo da vela para a segurança digital corporativa:
Cultura de Segurança Digital: Assim como todo velejador passa por um treinamento rigoroso, todo funcionário, da Diretoria ao estagiário recém contratado, precisa de treinamento de conscientização em segurança digital. Não se trata apenas de uma verificação anual, mas uma capacitação para que todos os funcionários saibam como atuar para proteger a segurança digital da empresa e também a sua própria.
Simulações de Incidentes e Crises: Quais são as simulações de “homem ao mar" da sua organização? Como sua empresa vai proceder em caso de um incidente grave de segurança digital. Exercícios regulares simulando ataques digitais, violações de dados e falhas de sistema são necessários, incluindo simulações de crise com os membros da diretoria.
Coletes Salva-Vidas: Os "coletes salva-vidas" digitais nas organizações são os procedimentos de autenticação multifator, políticas de senhas fortes, criptografia de dados e controles de acesso. Conectar o ”arnês de segurança” significa garantir que cada funcionário siga consistentemente esses protocolos de segurança digital, de forma tão intuitiva e inegociável quanto usar um colete salva-vidas no convés.
Liderança na Tempestade: A segurança digital, assim como a segurança no mar, está sujeita a tempestades imprevisíveis. O papel de um CIO é liderar crises com determinação e clareza, mantendo a calma, provendo apoio aos times atuando no problema, e facilitando a tomada de decisões difíceis.
Para ir além dos limites, seja competindo em uma regata oceânica ou implementando tecnologias digitais de ponta, a segurança deve vir em primeiro lugar. A linha de defesa mais forte é a conscientização, a preparação e a responsabilidade coletiva da segurança digital da organização.
Espero que este primeiro episódio tenha sido útil para você. Se tiver gostado, compartilhe e também confira a minha campanha de arrecadação de doações para a UNICEF, onde você pode fazer a diferença na vida de uma criança em dificuldade.
Que bons ventos estejam com você.
Breno