Episódio 05 - Agosto de 2025
Ahoy!
Em alto mar, especialmente em uma regata como a Clipper Race, velejar não é seguir uma linha reta até a chegada. O trajeto de um veleiro se assemelha muito mais a um zigzag. O rumo do barco precisa ser ajustado constantemente para responder à dinâmica do vento, tempo, marés, correntes, outros barcos competidores, etc. Velejar envolve táticas mais complexas do que a maioria das pessoas imaginaria. A navegação oceânica é, fundamentalmente, sobre resolução de problemas, forçando se adaptar constantemente, mudando o que está sob seu controle em resposta a condições que estão fora dele.
Um veleiro se move usando o vento, não apenas quando ele sopra por trás. Pense em uma vela como a asa de um avião na vertical. À medida que o vento flui sobre as duas superfícies da vela, o ar na parte interna (lado côncavo) desacelera, mas o ar na parte externa (lado convexo) tem uma distância maior a percorrer. Para cobrir essa distância maior no mesmo tempo, o ar na parte externa da vela precisa se mover mais rapidamente.
À medida que o ar acelera na parte externa da vela, o Princípio de Bernoulli entra em jogo. Esse princípio da dinâmica de fluidos nos diz que, à medida que a velocidade do ar aumenta, sua pressão diminui. Assim, o ar em movimento rápido na parte externa da vela cria uma área de baixa pressão. Enquanto isso, o ar em movimento mais lento na parte interna da vela cria uma área de alta pressão. Essa diferença de pressão gera uma força poderosa chamada de sustentação, que efetivamente puxa o barco para frente.
A força de sustentação não empurra o barco apenas em linha reta, ela tem dois componentes: um que impulsiona o barco para frente e outro que o empurra para os lados. Quando uma vela é posicionada muito paralela ao barco (posição de orçar) , mais dessa sustentação se transforma em força lateral. Quando a vela fica mais aberta, a sustentação produz mais força para a frente e menos empurrão lateral. O componente para a frente é o que faz o barco acelerar. A força lateral, por outro lado, é neutralizada pela quilha – aquelas "barbatanas" profundas sob o barco. Elas também agem como asas subaquáticas, criando sua própria sustentação para impedir que o barco simplesmente deslize lateralmente.
Para obter a máxima velocidade e ir na direção certa, os velejadores ajustam constantemente as velas para maximizar a força que move o barco para a frente. Existem duas regras simples para ajuste de velas: "Na dúvida, folgue a vela" e "Uma vela panejando (batendo) é uma vela infeliz". Uma vela muito apertada reduz a eficiência e aumenta a força lateral; uma vela muito folgada não gera força suficiente. A vela tem o melhor desempenho pouco antes de começar a panejar.
No mundo corporativo, o ambiente é igualmente dinâmico. Mudanças de mercado, tecnologias emergentes, e novas estratégias dos concorrentes podem te tirar do curso e exigir ajustes. Mesmo os melhores planos podem falhar no oceano, como no escritório.
Em minha carreira, posso contar sobre a experiência de liderar um projeto que não deu certo. Fui encarregado de implantar um sistema de TI para vendas que permitiria a transformação de uma importante unidade de negócios da empresa. Essa solução de TI era usada em outra unidade de negócios menor de outra região, e foi selecionada para ser modernizada, aprimorada e globalizada. Ao conhecer melhor a solução, eu percebi os sinais de problemas técnicos, fornecedor despreparado, e falta de confiança na solução a partir do meu próprio time. No entanto, hesitei em contestar e propor mudar a direção. Eu estava tão focado no que me foi pedido para entregar, que não enxerguei o verdadeiro objetivo para o negócio da empresa. Me apeguei àquela solução e associei que declarar o fracasso daquela solução especifica seria como meu próprio fracasso. Eu ignorei meu instinto e os sinais de alerta na minha frente. Não pedi ajuda suficiente a pessoas que poderiam me orientar. Foi como um capitão mantendo o mesmo curso, ignorando que os ventos haviam mudado.
Aprendi a lição com aquele projeto e, anos depois, diante de um projeto global similar, ainda maior, eu não hesitei. Analisei os problemas, propus alternativas, obtive apoio e executei mudanças significativas nas soluções de TI, nos fornecedores e no time de projeto. Sofremos um atraso inicial, mas, no final, tivemos sucesso e conseguimos o resultado esperado.
O caminho para atingir um objetivo é raramente uma linha reta, seja no mar ou nas empresas. O sucesso exige adaptabilidade, reconhecendo os fatores que estão fora do seu controle enquanto você se concentra no que está ao seu alcance.
Mire no objetivo, ajuste o caminho e não se apegue demais ao plano inicial.
Reconheça o que está fora do seu controle. Como disse o pensador estóico Epictetus: "Não é o que acontece com você, mas como você reage a isso que importa."
Seja decisivo: reconhecer quando algo que você está liderando não está funcionando exige coragem. Mude o rumo decisivamente.
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Que bons ventos estejam com você.
Breno