Episódio 03 - Agosto de 2025
Ahoy!
Para participar da Clipper Race é necessário passar por um treinamento de elite organizado em quatro níveis. Independente do nível de experiência no mar, desde iniciantes até veteranos, todos passam por uma curva de aprendizado para se tornarem velejadores oceânicos de competição.
Para quem nunca velejou, um dos primeiros desafios é aprender o vocabulário. Em um barco, a frente chama-se proa, a parte de trás é a popa, bombordo é o lado esquerdo considerando-se a proa como frente, boreste o lado direito, e cabos são as cordas usadas a bordo.
Eu aprendi a velejar ainda garoto e já conhecia todos esses termos, mas em português. Em inglês eles são bem diferentes e não se traduzem diretamente, portanto precisei reaprender. Levou tempo para absorver os termos em inglês, o que é vital porque, em uma regata, mesmo alguns segundos de hesitação durante uma manobra podem fazer o barco perder velocidade e ser ultrapassado por outro.
Para velejar em alta performance, é necessário aprender continuamente a antecipar as mudanças de tempo, vento, marés e correntes, ajustar as velas, mudar o rumo, etc. Qualquer pequena melhoria faz diferença: aumentar 0.1 nó de velocidade média do barco ao longo de uma circum-navegação pode significar completar a jornada com seis dias a menos. Em um barco, nó é a medida de velocidade, 1 nó significa 1 milha náutica por hora, ou 1,8 quilômetros por hora.
O aprendizado contínuo em uma regata não é apenas sobre performance técnica como antecipar o tempo ou fazer os melhores ajustes nas velas, mas também sobre performance do time. Manobras para mudar a direção, como um jibe, onde o veleiro vira sua proa (traseira) através do vento, não são simples; elas envolvem várias passos coordenados entre a tripulação. Trocar as velas, especialmente os spinnakers, ou vela-balão, exigem um exaustivo trabalho em equipe combinando técnica, força e precisão.
Para funcionar em alta performance, um veleiro precisa estar em perfeita harmonia com as condições predominantes. Isso exige que a tripulação esteja altamente consciente e atenta tanto à configuração geral (o plano de velas) quanto aos ajustes finos. Se em algum momento o veleiro parecer estar lutando contra o mar ou não estiver correndo tão rápido quanto deveria, a tripulação precisa saber quais mudanças fazer. Ao final dos quatro níveis de treinamento da Clipper Race, aprendemos não apenas como fazer, mas, tão importante quanto, por que e quando fazer.
O aprendizado no mar é contínuo. Os melhores skippers (comandantes) de competição nunca param de aprender, e confessam que podem aprender com qualquer pessoa, não apenas com aqueles mais experientes do que eles(as).
Assim como os ventos estão em constante mudança no mar, o ambiente de negócios está sempre evoluindo, exigindo aprendizado contínuo. Na minha área profissional, tecnologia, isso acontece numa velocidade cada vez maior. Ao longo da minha carreira, liderei e participei de programas de transformação digital, e destaco um aprendizado crítico entre todas as minhas experiências: a principal transformação não é a tecnologia, são as pessoas.
A transformação digital eficaz começa e termina com as pessoas, através de aprendizado, adoção e mudança. Comprar a solução de tecnologia mais avançada do mundo não garante retorno para o negócio se a organização não aprender a como se reinventar usando o poder dessa tecnologia.
Considere a IA (inteligência artificial) como exemplo. Aposto que você tem lido e escutado muito sobre IA, a menos que tenha ficado velejando sozinho pelo planeta sem conexão com o resto do mundo pelos últimos anos. O hype em torno da IA é enorme, promessas de resultados quase mágicos estão por toda parte, e as organizações estão ansiosas para colocar em prática. Entretanto, tenho visto muita frustração, falta de retorno sobre o investimento e confusão sobre como e por onde começar a usar IA nas empresas.
Assim como os skippers experientes usam conhecimento e ferramentas para obter o melhor desempenho de um veleiro de corrida, organizações que adotam a IA devem investir em aprender como, quando e onde usá-la, priorizando as áreas onde haverá vantagem competitiva para o negócio, como aperfeiçoar ou criar melhores produtos ou serviços, proporcionar uma experiência superior para os cliente ou atingir excelência operacional.
Qualquer que seja sua jornada, implementar estratégias digitais para sua empresa ou cruzar um oceano em uma regata, abrace o aprendizado contínuo como um hábito.
Se você gostou desse episódio, compartilhe, me mande uma mensagem com comentários ou sugestões, e também confira a minha campanha de arrecadação de doações para a UNICEF, onde você pode fazer a diferença na vida de uma criança em dificuldade.
Que bons ventos estejam com você.
Breno