Parte 2, Episódio 1 - 30 de Outubro de 2025
Ahoy!
O sonho e o desafio de cruzar um oceano velejando foram, finalmente, completados. A emoção de estar de volta à terra firme após essa jornada e rever família e amigos foi enorme!
No dia 31 de Agosto, zarpamos no veleiro Scotland/Oban da Marina de Portsmouth, no sul da Inglaterra, e chegamos em Punta del Este, no Uruguai, em 12 de Outubro. Foram seis semanas intensas, navegando por mais de 7 mil milhas náuticas, cruzando a Linha do Equador e encarando o que a Mãe Natureza tinha a oferecer: desde ventos de 43 nós (80 km/hora) e chuvas torrenciais, até calmarias com calor escaldante. E tudo isso em uma corrida de competição! Nosso foco era obter a máxima performance do veleiro, com segurança, 24 horas por dia, para superar os outros nove barcos competidores.
A travessia foi dividida em duas etapas:
1ª Corrida: Do Reino Unido à Espanha, onde enfrentamos as condições climáticas mais adversas, e chegamos em primeiro lugar!!
2ª Corrida: A etapa mais longa, da Espanha ao Uruguai, onde terminamos em quinto lugar.
As exigências físicas e mentais foram extremas, superando as minhas expectativas, apesar de toda a preparação com exaustivos treinamentos (quatro semanas inteiras dedicadas à formação).
Neste primeiro episódio de volta, quero falar sobre um aspecto de liderança que considero crítico durante toda nossa jornada a bordo do veleiro Scotland: a Resiliência!
A Clipper Race é mais do que uma regata; é um projeto de meses, até anos, de planejamento, treinamento, e trabalho meticuloso. Antes mesmo da largada, tudo precisa estar pronto – velas, equipamentos, comida e suprimentos. No meio do oceano, não há UberEats ou entrega da Amazon!
Uma vez no mar, a rotina é brutal. Você está à mercê das condições, mas precisa trabalhar incessantemente para extrair o máximo de velocidade, garantindo a segurança de todos. Nossa rotina envolvia:
Pilotar o veleiro e analisar previsões meteorológicas.
Ajustar velas, fazer manobras e reparar danos (em velas e equipamentos).
Tarefas essenciais como tirar água de porões, cozinhar e limpar.
O time trabalhava em turnos (watch system): turnos de 6 horas durante o dia e 4 horas durante a noite, resultando em um sono muito fragmentado.
As condições do tempo apenas amplificam a dificuldade. Viver em um ambiente pequeno, inclinado a 25 graus, com mais 19 pessoas, em beliches apertados e roupas úmidas, exige muito. Passamos horas sob chuva ou sol a pino, encharcados por ondas, alcançando o limite da exaustão ao puxar cabos e velas enormes.
Nossa primeira corrida, ironicamente chamada de 'A Batalha de Biscay', foi o auge do mau tempo. Lembro-me de estar no limite, após dias de enjoo (o que raramente me afeta), esperando minha vez de pilotar no timão. Caí em um micro-sono e sonhei vividamente com alguém me oferecendo um café quente. Acordei com o braço estendido, pronto para pegar aquele café dos sonhos.
Já na segunda corrida, enfrentamos um desafio diferente: o calor escaldante e a falta de vento próximos ao Equador. As cinco semanas desse trecho foram um teste mental de paciência. Confesso que, em muitos momentos, eu contava os dias que faltavam para avistar a terra.
Em meio a todas essas dificuldades, a palavra que melhor resume esta aventura é Resiliência.
Acredito que a resiliência do nosso time nos manteve firmes no propósito de performance e segurança durante as duríssimas condições da primeira corrida, resultando no primeiro lugar.
Pessoalmente, a resiliência foi o que me permitiu focar no momento, em vez de desejar que o tempo melhorasse ou os ventos ficassem mais fracos — fatores totalmente fora do meu controle. Coloquei minha energia em executar minhas tarefas da melhor forma possível. Pilotar o veleiro ao longo da Baía de Biscay, em meio à chuva, ventos fortes e ondas, tornou-se, ironicamente, um dos momentos mais gratificantes da jornada.
Olhando para o mundo empresarial, resiliência é atualmente uma competência crucial. As organizações lutam para sobreviver e crescer em um ambiente complexo, volátil e acelerado. Não se trata apenas de "aguentar a pressão", mas sim de encarar a adversidade como um modus operandi e buscar constantemente soluções que se traduzam em vantagens competitivas.
Que essa reflexão inspire você em seus próprios desafios, no mar ou na terra firme. Concluo com uma frase que refleti com frequência durante a travessia.
"Você tem poder sobre sua mente, não sobre eventos externos. Perceba isso e você encontrará a sua força."
— Marcus Aurelius
Que bons ventos estejam com você!
Breno
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