Parte 2, Episódio 2 - 16 de Novembro de 2025
Ahoy!
Ontem, a Clipper Race deu a largada para a terceira perna da regata de volta ao mundo, partindo da Cidade do Cabo, na África do Sul, em direção a Fremantle, na Austrália. Serão 3.500 milhas náuticas a serem navegadas sob condições de vento e maré desafiadoras, baixas temperaturas e ventos de popa. Este será mais um desafio de estratégia, tática e execução para as equipes de cada barco, que precisarão tomar diversas decisões ao longo do percurso, utilizando dados e informações disponíveis, aliados à experiência, intuição e bom senso.
Em um mundo onde os dados são tão abundantes e acessíveis, alavancados pela inteligência artificial (IA) que nos auxilia a analisar, encontrar padrões e fazer recomendações, como decisões são tomadas em uma regata oceânica?
A Clipper Race é uma competição singular, na qual todos os barcos são intencionalmente idênticos. Eles possuem o mesmo tamanho (70 pés), utilizam os mesmos equipamentos e o mesmo conjunto de velas. Além disso, recebem diariamente as mesmas informações de previsão de tempo, vento e marés, etc. Essa padronização é o cerne da corrida, pois elimina qualquer vantagem de equipamento. Embora disponham de Starlink, rádio e outros dispositivos de segurança para comunicação, não é permitido obter informações de previsão de tempo que não sejam as oficialmente distribuídas pela organização da Clipper Race.
Como membro do barco Scotland, completei a primeira etapa da regata, navegando mais de 7.000 milhas náuticas ao cruzar o oceano Atlântico, partindo da Inglaterra e chegando ao Uruguai. Passamos por condições muito diversas: mau tempo com ventos fortes de 40 nós e grandes ondas na Baía da Biscaia, na costa da França; dias de calmaria, calor e chuvas tropicais nos Doldrums (Zona de Convergência Intertropical); e ventos fortes de popa, que permitiram velocidades de até 20 nós na parte próxima à costa da América do Sul.
O uso de dados era parte da rotina: todos os barcos possuem um laptop com o software de navegação marítima Timezero, onde se pode analisar diversas informações relacionadas ao tempo e à posição dos barcos competidores. Além disso, cartas (mapas) náuticas, logs e instrumentos de medição da performance do barco compõem uma estação de trabalho que poderia se assemelhar a um painel de corretagem da Bolsa de Valores.
Entretanto, será que os dados definiam 100% da estratégia e da tática a serem adotadas? Não. Eles eram uma referência fundamental; entretanto, as decisões de estratégia e tática passavam sempre pela experiência e intuição, principalmente de nossa Skipper Heather Thomas e da First Mate Millie Apperley, que regularmente discutiam e compartilhavam as decisões conosco, da tripulação.
Dados de previsão de tempo, como o próprio nome diz, são uma previsão baseada em modelos matemáticos complexos e informações históricas, e representam uma fotografia do momento em que essas análises foram geradas. Além disso, o oceano é muito vasto, e a previsão sempre faz uma generalização de uma área grande, onde existem variações quando se considera uma posição mais precisa.
Deve-se considerar, também, o dinamismo do tempo e as condições das pessoas da equipe, que por vezes estavam exaustas e precisavam de um descanso. A capacidade de ler o ambiente em tempo real — seja analisando as nuvens, observando a formação das ondas ou sentindo a temperatura e a umidade do ar — também era uma competência usada frequentemente.
Acredito que sim. O uso de dados, aliado à aplicação de inteligência artificial e seus modelos preditivos e generativos, explodiu exponencialmente e tem feito a diferença competitiva para empresas de ponta em todas as indústrias. Entretanto, isso significa o fim do fator humano na tomada de decisão? Penso que não.
A frase "No momento em que pode ser medido, já é tarde" é frequentemente atribuída a Peter Drucker e reflete a ênfase na intuição. Muitas questões cruciais — como a cultura, o moral das equipes ou uma mudança emergente no mercado — precisam ser percebidas, sentidas e decididas com base na intuição e na observação, antes de estarem disponíveis em dados mensuráveis.
Como um executivo de tecnologia, acredito que o futuro esteja na combinação da inteligência humana, em todos os seus aspectos, com a inteligência artificial, juntas reinventando o mundo dos negócios e, quem sabe, também as regatas oceânicas.
Que bons ventos estejam com você!
Breno
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